Bom Fim

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Quem és tu, Senhor do Bonfim, que de tantos jeitos te disfarças?

As irmãs de negro esculpiram-te como um homem crucificado. As mulheres de branco dizem que criaste o Mundo e insuflaste a Vida. Derramam baldes de água perfumada aos pés da tua casa e dedicam-te aplausos ritmados e ensurdecedores logo nos primeiros dias do ano. À tua volta construíram uma fortaleza barroca pintada de branco. Chovem búzios ao som dos teus majestosos carrilhões. De onde vens, Senhor do Bonfim?

Do vazio para criar o pleno, dos rituais africanos, das adorações indígenas? Ouvi dizer que vieste da terra do choco frito e que te deram corpo no ébano para te fazerem uma estátua. Que foram os portugueses que chamaram por ti e te trouxeram porque tu lhes salvaste a alma de um final infeliz. Não foi assim, Senhor do Bom Fim?

Agora és da Baía, mas já foste dos pretos, dos vermelhos e dos brancos. Agora és dos mulatos e pintam-te com as cores do arco íris. Não lhes bastando o ébano, há já mais de duzentos anos que te quiseram concretizar numa delicada banda de seda para se permitirem levar um pouco de ti a todas as casas. Tens uma só forma e todas as cores, porque, como Criador, ganhaste o estatuto de representante de todas as ancestrais forças da natureza – vulgo Orixás.

Hoje, essas cores amarram pulsos e calcanhares também eles de todas as cores e fusos horários. Já não são de seda e poucas levam sequer consigo o sinal da cruz dos dedos de uma freira. É que hoje a bênção é outra. Hoje, as cores do Bonfim já chegaram ao Algarve, trazidas por navegadores de oceanos que lhes davam pelas canelas, que calcorreiam as praias vendendo-as em conjunto com pulseiras de búzios e toalhas de praia.

Porém, não nos deixemos admirar pois que pouco faltará ao galo de Barcelos para chegar às cozinhas de Pequim. Também nós, lusitanos, a certa altura da nossa vida benzemos outras fitas, dessa feita cobertas de palavras desenhadas a tinta de feltro carregado do positivismo que nos era conduzido directamente da corrente dos nossos entes mais queridos – símbolos de fulgor que vencem o modelo religioso ou patriótico.

Estas cores são um, dois, três nós – um, dois, três desejos – uma, duas, três esperanças que levamos no pulso. São um suspirar que deitamos de costas para o mar, onde as fitas serão outra vez búzios. Serão outra vez Orixá e outra vez Bonfim. E nós demos os nós – acreditámos.

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A Iminência do Sonho

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Que burburinho é este que venda a terra? Que atrevimento o seu que, apetecendo-lhe, desenha contornos de realidade pretendendo escalar montanhas! Ainda ontem pouco mais era que uma manchinha disforme e nublosa e agora, aparece assim, sem mais nem menos, querendo ter voz ativa, querendo ter firmeza de pulso, querendo preencher-nos a mente. Medidas urgentes terão que ser tomadas.

Então, hasteiam-se as pálpebras devagarinho, olha-se diretamente e acompanha-se o movimento do sol: ele nasce, ele deixa-se estar lá em cima, ele põe-se. É real. Vasculham-se todos os ângulos da memória para pô-lo fora das gavetas, arejá-lo, impedir que permaneça mais tempo guardado. Queremos dar-lhe as boas vindas! A ele! Ao sonho.

Mas o sonho já existia. Conduziu-nos em expedições virtuais de acelerar a corrente sanguínea, de correr e alcançar e, por fim, de suspirar, segurando o queixo numa mão e o coração na outra. Costumávamos encontrá-lo neste circuito fechado quando, na primavera da mente, nos lembrávamos de compor uma exaltação ao futuro. Até que a força nos tomou e despertámos o sonho da hibernação, sentenciando-o a acompanhar-nos perpetuamente até que algo melhor nos separe. A manchinha disforme concretiza-se, levanta-se o nevoeiro e, ao som do ranger de uma porta, entra um feixe de luz.

Ofuscados, cerramos os olhos e depois, assustados, arriscamos abri-los. O coração comprime e as lágrimas irrompem. Criou-se a liberdade! Aquele sonho desapareceu, porque já não o é. Aquele altar desintegrou-se em detritos tangíveis e sentou-se o sonhador no pedestal, promovido à viabilidade, pensando no seu mar de rosas. De repente, surge uma tempestade de adamastores, e as rosas transformam-se em ondas monstruosas de crista severa que engolem naus, a chuva cai pesada, os relâmpagos assombram o céu, e depois, num agitar de neurónios, o sol raia novamente, tímido, por entre as nuvens e tornam as águas calmas onde flutua um barco à vela, num cenário de realidade confortante e feliz.

O sonhador, majestoso no seu pedestal, desce ao nível do mundo, saltando para terra, deixando as nuvens para o lugar onde coabitam as coisas. Sedento do concreto, segue então o feixe de luz e empurra a porta para realidade, embriagado num nervoso explosivo. Mas, antes de alcançar com o seu pé direito o outro lado e atravessar a ombreira que separa a aspiração do verídico, é contagiado pela eterna memória do ingrediente secreto – a força motriz que ali o levou. Que força é essa que arregala os olhos e os obriga a ver? Que estuda a realidade como quem observa todas as faces de uma figura geométrica? E que força é essa que recebe nos seus braços sonhos alheios, limando-lhes as arestas e cuidando-os como seus?

Finalmente, o sonhador descobre que essa é a força que nos deu a luz do sol, que nos embalou e que nos sinalizou o caminho; que tanto nos alisou o chão, como nos ensinou a saltar barreiras; e que nos permitiu sonhar.

O sonhador atravessa a porta e deixa-a aberta atrás de si, levando consigo realidades de sempre, insubstituíveis, perpétuas e concomitantes. Corre ao grande rumo de mangas arregaçadas e olho firme, sabendo que voltará a cruzar aquela ombreira ocasionalmente para visitar o sonho – e a força que o conduzirá, de novo, ao real.

Para os meus pais, que tornam o sonho iminente.

Ode à Confeitaria

023_Chantilly, chocolate, creme de ovo, frutos do bosque, compota, e tantos outros delitos:

Bolos, chocolates, biscoitos, pães, folhados, sobremesas.
Um pastel de nata, uma bola de Berlim,
Um mil-folhas de ovo ou um pequeno quindim.
Uma tarte de amêndoa, uma tradicional queijada,
Um croissant ou uma cheesecake estrangeirada.

São laivos de doçura, ganância, prazer com a agradável amargura de um café tirado à bica na melodia estridente do bater de chávenas com jatos agudos de vapor de água. Cimbalino, bica, expresso ou café: é indiferente, desde que seja curto, cheio, pingado, em chávena escaldada, fria ou assim-assim. Que sorriso nos desperta o empregado que serve o café como lho pedimos (e que memória lhe esquecemos de louvar!). E que fúria nos causa o insolente que ignorou a nossa encomenda especial – eu tinha pedido cheio.

São tonalidades de amarelo torrado, bege, negro, vermelho. E os espelhos que os multiplicam! Arcos-íris de espetro açucarado que atravessam o salão e as conversas:

Ao canto, reúnem-se as velhas com suas meias-torradas e galões claros, de cabeça estendida para o centro da mesa no intuito de ouvirem e serem ouvidas.

Ao balcão, um homem na casa dos cinquenta pega na chávena de café e, de cigarro na boca, abandona o pires e o pacote de açúcar rasgado, dirigindo-se para a porta.

Nas mesas quadradas, duas jovens adultas já espalharam dossiers e livros pela mesa, misturando-os com pratos sujos de restos frios de tostas, guardanapos amanteigados e uma chávena de café em cima.

Nas mesas redondas, duas amigas tentam conversar enquanto uma pequena figura puxa arritmicamente as saias de uma delas: Compra um chupa, mãe, compra; Hoje não. Ela não vai desistir e percorre novamente as montras de bolos de aniversário com bonecos em pasta de açúcar e campos de futebol em coco tingido para mais tarde voltar à carga.

No canto com melhor visibilidade sobre todo o recinto de devoração, está também o solitário, que apenas pediu café, e que revestiu a mesa com o jornal do dia que, ora vai lendo, ora vai ignorando para observar a panorama.

Junto à caixa, uma senhora de altos tacões e casaco pendente sobre os ombros – queria levar umas miniaturas. E o empregado do outro lado do balcão já está pronto, de pinça cromada e caixa de papel em riste, a perguntar se aquele tamanho é adequado.

Eis a doçura deste lugar comum, com ambos os sentidos que esta expressão carrega. Há uma certa rotina neste quadro, que não é necessariamente negativa, mas antes graciosa e encantadora. O chá, o bolo, o amigo são peças de um puzzle concreto que devemos brindar.

Um dia não são dias e hoje não janto.

Amor: o próprio

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Dedicatória implícita.

Estimados amigos:

O amor tem muitas formas. Pode apresentar-se sob aspeto de quadrado, trapézio ou polígono abstrato e, de entre os sentimentos que gerem a alma, é um dos mais complexos, pois constitui uma agulha de sensor ultrassensível e, simultaneamente, hiper-oscilante. Causa conforto e desconforto, alegria e tristeza, serenidade e inquietação. Há quem seja de entrega imediata, quem estrebuche convictamente contra a sua chegada, e depois há quem nem sequer dê conta da sua sorrateira aproximação.

O amor não é cego – é omnividente porque vê para além dos olhos, das esquinas e das verdades; o amor não é surdo – escuta as palavras que encontra nos gritos, na quietude e no silêncio; o amor não é mudo – fala pelos cotovelos, pelas mãos, pelos sorrisos, pela barriga, pelo corpo.

O amor não tem sentimentos – quem os tem é a alma – mas manipula os odores, sons e cores, filtrando-os a seu bel-prazer. Pode transfigurá-los e exagerá-los, tirando as coisas do seu lugar e recolocando-as em baús empoeirados ou estantes de consulta diária. Assim nos vai comandando: inverte a ordem natural e a cronologia, colocando-nos em escavações do passado ou projetando-nos no futuro, mas raramente nos permitindo o prazer do presente.

O amor é diferente da paixão, que tem prazo de validade e, ou se metamorfoseia, ou desaparece. A paixão é o ritmo acelerado da adolescência do amor – é o botão de rosa. Ao contrário do amor, flor rebentada de severidade madura, mas não livre do desvario. O amor abre portas, fecha portas, bate com elas, deixa-as entreabertas e pode trancá-las sem nos deixar sair. Tal qual estória de princesa enclausurada na torre, o amor pode vender-nos ao insulamento e à desesperança; tal qual os guerreiros que a toda a hora constroem muralhas em forma de triângulo e as arrasam a fogo de canhão para apenas evidenciar os alicerces no meio dos destroços. Por vezes são essas fundações que demonstram a resistência da construção e o valor do território que defendem.

Nos assédios do amor, fugimos em pânico do desabamento, evacuando os nossos ninhos e correndo para o que temporariamente será um lugar seguro, esperando encontrar outro abrigo por trás de uma nova muralha, mais moderna, resistente e formosa. Entramos neste processo cíclico até regressarmos ao ponto de partida, ao primeiro muro que tombou, para vermos que os antigos alicerces já não precisam de muralha porque estão cobertos de espécies floridas que brotam ao amanhecer e fecham ao ocaso, como tudo na vida.

Não nasceram sozinhas: alguém as plantou.

Surpresa

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A surpresa é intemporal: atravessa a nossa vida, sobressaltando-nos sob vários disfarces que se adequam à faixa etária do nosso entendimento. Em bebés, surpreendem-os fontes sensoriais básicas, como o som dos barulhos repetidos ritmicamente; em crianças, surpreendem-nos duas mãos que tapam os olhos – “Quem é?” -; em adolescentes, surpreende-nos um sorriso do sexo oposto a nós dirigido; em adultos, surpreendem-nos as primeiras rugas e, em idosos, surpreende-nos a insistência descarada da evolução. Cada surpresa traz o seu traje e cada uma despoleta uma expressão diferente: um sorriso arreganhado, uma curiosidade sufocante, um rubor na face, um franzir de sobrancelhas, um tombar de queixo.

Normalmente, a palavra surpresa entende-se com conotação positiva porque pensamos imediatamente num bolo de aniversário colorido. De facto, a surpresa pode ser boa no sentido em que desperta um sorriso no surpreendido e orgulho no surpreendedor. Pode ser pequena ou grande mas as primeiras frações de segundo de quem se surpreende são sempre iguais e refletem-se sempre numa expressão patética que se transfigura lentamente até atingir uma manifestação libertada consoante o grau de satisfação. Assim acontece porque o irmão-gémeo da surpresa é o inesperado.

Enquanto percorremos a rua em marcha apressada para desembocar numa praça cheia de pombos e estátuas de bronze, surpreende-nos inesperadamente (e redundantemente) um criador de bolas de sabão gigantes. Trata-se de um artista de rua pouco original mas aqueles reflexos espelhados verdes e cor de rosa saltam-nos sempre à vista e levam-nos para o chão de ladrilho de uma velha cozinha, onde sentámos um rabo de fraldas, com um tubo numa mãozinha e o apetrecho de sopro na outra, em tentativas sem sucesso de criar uma bolha gigante. Pensamos: Que doideira que era se tivesse oito anos. Entretanto já abrandámos o passo, ou parámos até, para observar o homem com um copo de plástico no chão que se esforça por ver cair algumas moedas. Deixamo-nos estacar ali alguns segundos com um pé indeciso a apontar para a direção do prosseguimento da marcha e o peso do corpo a tombar à vez para a perna que estacou naquele momento e para a outra que tenta avançar impaciente para continuar o percurso. Mas ali ficamos mais um pouco. Permitimo-nos involuntariamente observar o efeito da espuma com um sorriso meio patético e hesitante, apenas desviando os olhos para confirmar que não somos observados. Parámos aqui estes segundos, não à espera do desfecho de um espetáculo feito de água e detergente da loiça, mas para desassumidamente desafogarmos a vista.

É custosa a entrega voluntária àquilo que achamos que fomos mas que, afinal, ainda somos. Preferimos deixar a velha graça entregue a uma figura que cremos ser do passado em vez de engraçarmos livremente ao sabor da continuidade do ser. Começámos por ser crianças, depois fomos adolescentes e agora somos adultos. Em crianças queríamos ser crescidos, em adolescentes envergonhávamo-nos de ter sido crianças, em adultos esquecemos totalmente que o fomos (como se uma máquina de linha de fábrica nos tivesse colocado no mundo já engravatados) e, quando chegamos a idosos, a mocidade está tão distante que a miopia não nos permite alcançar a figura que afugentámos ao longo dos tempo e que agora só avistamos nos ecos reminiscentes da memória.

A grandiosa surpresa é aquela que revela que Sicrano não é fénix de quatro vidas: Sicrano Criança, Sicrano Jovem, Sicrano Crescido e Sicrano Velho. É antes uma coisa só: o resultado da evolução que começou no abriu dos olhos ao mundo, porque as fénixes só vivem nos contos e tudo o resto é uma linha contínua que não esconde nem apaga nada – nada renasce; tudo progride, transformando-se sucessivamente (mas não totalmente) o peão em skate, o gel em gravata, a parker em bengala. Conservar a infância não significa ser infantil, mas sim consciente de cada milímetro da nossa existência – Eis o segredo para uma gloriosa integridade. A grandiosa surpresa: enxergar.

Desfazemos o sorriso, fechamos a janela do olhar, retomamos o raciocínio anterior e aceleramos o passo para atravessar a outra metade da praça, já sem vermos onde pomos os pés, e apenas observando o chão onde se projetam os pensamentos presentes (o horário do barco, o que fazer para o jantar, a reunião de amanhã,…). Assim nos afastamos, mais uma vez, da nossa meninice e abandonamos o artista de rua que permanece ali, tentando captar a atenção dos meninos e das meninas, sem saber que é também admirado intermitentemente pelos homens e mulheres do tempo das bolas de sabão.

Procissão

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As manifestações religiosas são, sem qualquer ponta de ironia, comoventes. Pelo menos se pensarmos num plano ideal: uma multidão unida pelo mesmo sentimento, com respeito pelo mesmo criador e com rituais que reúnem famílias. Estou em crer que quem transporta fé no coração tem uma força extra a que os demais não têm acesso, porque essa força espiritual não descende dos céus – ascende do espírito: brota da crença do homem na existência de um deus em vez da existência de um deus que criou o homem. Quem crê faz-se animar de um alento que dificilmente encontraremos noutro lugar.

Enquanto alma anónima no mundo espiritual quis infiltrar-me numa destas manifestações religiosas no intuito de observá-la, conhecê-la e, sendo desprovida de fé, deixar-me invadir por essa convicção que move multidões. Para o efeito, escolhi a procissão.

Do ponto de vista informal, a procissão é um “conjunto de muitas pessoas que afluem com um mesmo fim” (Fonte: Dicionário Priberam). A procissão implica uma caminhada e um destino e manifesta publicamente o sentimento religioso. No mundo romano, a procissão já existia e era constituída por bailarinas, sátiros e jogadores. Hoje é feita de povo e barro pintado que, em cortejo solene calcorreia as ruas sinuosas de uma povoação, reacendendo as brasas da tradição no dia em que passa a procissão. No fundo, todos compreendemos do que trata esta manifestação, é-nos familiar na nossa memória de infância ou na nossa vivência actual e faz parte da nossa cultura. Gostaria, contudo de dar a conhecer o conjunto de sensações percepcionadas por uma leiga.

Cheguei à igreja no final da missa, quando a comunidade já se encontrava dividida entre os que já tagarelavam no adro e os que tinham permanecido ainda dentro da igreja. Na casa de Deus aprontavam-se as alfaias e os santos para partir em romaria. Senti alguns olhos passarem por mim de testa franzida com ares de quem se questiona de onde apareceu aquela cara que, sem que eles soubessem, não tinha sequer sentido na fronte a frescura iniciática que escorre da concha, mas muitos desabotoaram um sorriso ao reconhecerem nos meus traços os da minha mãe, essa sim, uma cara conhecida e amiga. Tudo isto enquanto ainda se entoavam cânticos pós-missa. Deixei passar os santos e seus andores e, acotovelando as velhotas que andavam com mais vagar, saí para o adro a tempo de ver a procissão contornar a igreja para enveredar na malha urbana da antiga povoação. Evitei o contorno e fui de redor ultrapassar os crentes e finalmente infiltrar-me no cortejo.

Na descida da romaria fui rodando o pescoço para todos os lados, querendo absorver todo aquele ambiente, procurando a alma da procissão. Depois percebi que a procissão não tinha alma; quem a tinha eram os seus participantes e então arregalei os olhos e o que vi abalroou-me: uma senhora ao meu lado fazia a sua caminhada da fé de chinelo de enfiar no dedo decorado com uma gritante flor de plástico rosa-choque, mais à frente ia uma rapariga muito bem aperaltada mas quase nuazinha como Deus a trouxe ao mundo, do outro lado do cortejo iam duas mulheres de meia idade que cumpriam penitência nos seus saltos-agulha de dez centímetros e na dianteira ia uma criancinha toda vestidinha de pureza com folhinhos na saia e fitinhas brancas na cabeça que acompanhava a procissão aos saltos e abanando a sua graciosa juba loira para um lado e para o outro. Olhei-me ao espelho virtualmente e senti-me quase descontextualizada ao ter decorosamente coberto os meus ombros com uma malhinha e calçado uns sapatos que me cobrissem os pés. Senti-me mais enquadrada quando comecei a perceber que naquela marcha solene também participavam senhoras de feição determinada, cobertas nos ombros e pés, embora algumas levassem vestidos que estou certa de terem sido usados no casamento de um parente.

Seguiu a procissão estrada abaixo, parando uma e outra vez para ajeitar os andores. Nestes momentos, a senhora que seguia perto de mim segurando no estandarte, inclinava-se para o lado para poder ver para lá do panejamento e proferia um ruidoso “Psht!” seguindo de um “Está parado!” endereçado às três meninas que seguiam na dianteira vestidas de branco e que, aproveitavam também estes momentos para, fatigadas daquela tão longa caminhada, se pendurarem na cruz processional deixando descair o corpo até se sentarem no lancil para descansar as pernas. No mesmo decorrer de acontecimentos, a senhora do estandarte, vendo que aquilo podia demorar, comentava para o lado a multa que a vizinha apanhara por não limpar o terreno, ao que a outra crente respondia “E bem! Fogos já há suficientes!”. Foi também numa destas paragens para ajeitar a marcha que, para êxtase de muitos dos devotos, se soube através da histeria proveniente do café mais próximo que o Benfica marcara golo.

Ao curvar de uma esquina, ouviu-se um burburinho de vozes surpresas comentando que noutro tempo o caminho era diferente. Contudo, logo se juntaram ao ruído de espanto, alguns comentários explicando que se alterara o percurso para não empatar tanto o trânsito, face ao que todos aquiesceram pacificamente. Após este momento, a procissão chegou finalmente ao adro da igreja para lhe devolver a Nossa Senhora.

Todos se reuniram em torno dos andores para escutar o sermão do padre convidado, que muito ficou a dever à eloquência por estar repleto de lugares comuns e preceitos a cair de maduros. Ainda assim, todos rezaram o Ave Maria em uníssono e inclinaram as cabeças para receber a bênção do Santíssimo Sacramento (“Santíssimo” apenas, como lhe chamou o padre, já que estávamos todos em família). No fim, os santos entraram na igreja, os carregadores dos andores penduraram os fatos nos bancos, os padres em dois minutos voltaram a sair vestidos de homens comuns e, acabado o exercício da fé, começaram todos o exercício da língua, tagarelando uns com os outros, ali, no adro. Eram ainda mais, porque a festa era ao lado e já todos esfregavam as mãos para seguirem em verdadeira procissão o cheiro do frango assado.

E eu sentei-me num banco de pedra ali perto da igreja, desiludida com a fé e a força de espírito que eu tanto admirara até conhecer. Enquanto vivia aquele desconsolo lembrei-me de ter visto, num breve momento em que libertei os crentes do meu olhar ansioso, uma mulher num pranto sincero ao ver da janela passar a procissão. Redirecionei a atenção para a multidão em meu redor e não vi mais que rostos felizes à luz das velas acesas pelos devotos. Ao lado de umas pernas de minissaia aparecia de assalto uma pequena figura sorridente de cabelos esvoaçantes que seguiu a correr para o canto oposto. Mais atrás estava um carrinho de bebé rodeado de faces rubras representando macacadas dirigidas ao pequeno que estaria ali deitado alheio aos pais-nossos. Várias velhotas de braço dado com as suas filhas cumprimentavam as filhas das suas amigas que não viam deste o Verão anterior e contavam histórias acerca dos seus netos e, quem sabe, bisnetos.

Aos poucos, o adro ficou deserto, tal como aparece a quem ali passa noutra altura do ano e a multidão foi transferida para o recinto de festa. Eu fui vencida pela evidência dos factos. Em algumas coisas, os tempos não mudam, nem as vontades, e, cumpramos a tradição ou não, a procissão é um rio que desagua num mar de encontros, de abraços, de saudades e que enraíza muita gente ao seu berço imaterial, cumprindo um ritual que não é se não um ciclo útil e agradável à continuação da existência do homem-natureza,  pagão e cristão universal.

Apresentação

Zenit 12XP

A todos os visitantes:

Este é um recanto dedicado ao texto e à fotografia, aqui concomitantes pelo pensamento. Se a curiosidade cá vos trouxer, o que encontrarão será uma imagem acompanhada de uma composição temática mais ou menos filosófica. Essa imagem terá sido captada por mim numa máquina de fotografar antiga com rolo a cores, sem comandos automáticos e, por isso, desafiante. O texto que aparecerá com ela articulado será o resultado de um pensamento que me assaltou no momento em que, ao observar a imagem futuramente captada pela objectiva, se abriu o diafragma do meu imaginário, e permitiu a entrada de luz, criando um pensamento. Por isso lhe chamo pensamentoacores.

Como terá esta ideia surgido?

Sou amante da palavra e amadora de fotografia e, de passagem pela Polónia, parei num antiquário para comprar uma Zenit 12XP presumivelmente dos anos oitenta. Não sabia nada do assunto e agora pouco sei mas é com satisfação que pego na máquina fotográfica e vou ajustando a focagem, a velocidade ou a abertura do diafragma da maneira que me parece mais lógica para depois esperar dias a fio até acabar o rolo, revelá-lo e concluir que, das trinta e seis exposições, se aproveitaram duas ou três. Não tenho workshops, cursos intensivos nem profissionais – tenho só o gosto de fotografar – e por isso, as fotografias que aqui publicarei, serão sempre mais fruto da minha imaginação do que de um presumido profissionalismo. Sou autodidata desregrada e vou tirando fotografias aqui e ali, enquadrando e captando primeiro na minha cabeça, e deixando-me inspirar pela imagem da minha objetiva mental.

Quanto à parte da escrita, essa é uma velha paixão e esta é uma bela oportunidade para me envolver com ela.

Sejam bem-vindos ao meu pensamento a cores!