
As manifestações religiosas são, sem qualquer ponta de ironia, comoventes. Pelo menos se pensarmos num plano ideal: uma multidão unida pelo mesmo sentimento, com respeito pelo mesmo criador e com rituais que reúnem famílias. Estou em crer que quem transporta fé no coração tem uma força extra a que os demais não têm acesso, porque essa força espiritual não descende dos céus – ascende do espírito: brota da crença do homem na existência de um deus em vez da existência de um deus que criou o homem. Quem crê faz-se animar de um alento que dificilmente encontraremos noutro lugar.
Enquanto alma anónima no mundo espiritual quis infiltrar-me numa destas manifestações religiosas no intuito de observá-la, conhecê-la e, sendo desprovida de fé, deixar-me invadir por essa convicção que move multidões. Para o efeito, escolhi a procissão.
Do ponto de vista informal, a procissão é um “conjunto de muitas pessoas que afluem com um mesmo fim” (Fonte: Dicionário Priberam). A procissão implica uma caminhada e um destino e manifesta publicamente o sentimento religioso. No mundo romano, a procissão já existia e era constituída por bailarinas, sátiros e jogadores. Hoje é feita de povo e barro pintado que, em cortejo solene calcorreia as ruas sinuosas de uma povoação, reacendendo as brasas da tradição no dia em que passa a procissão. No fundo, todos compreendemos do que trata esta manifestação, é-nos familiar na nossa memória de infância ou na nossa vivência actual e faz parte da nossa cultura. Gostaria, contudo de dar a conhecer o conjunto de sensações percepcionadas por uma leiga.
Cheguei à igreja no final da missa, quando a comunidade já se encontrava dividida entre os que já tagarelavam no adro e os que tinham permanecido ainda dentro da igreja. Na casa de Deus aprontavam-se as alfaias e os santos para partir em romaria. Senti alguns olhos passarem por mim de testa franzida com ares de quem se questiona de onde apareceu aquela cara que, sem que eles soubessem, não tinha sequer sentido na fronte a frescura iniciática que escorre da concha, mas muitos desabotoaram um sorriso ao reconhecerem nos meus traços os da minha mãe, essa sim, uma cara conhecida e amiga. Tudo isto enquanto ainda se entoavam cânticos pós-missa. Deixei passar os santos e seus andores e, acotovelando as velhotas que andavam com mais vagar, saí para o adro a tempo de ver a procissão contornar a igreja para enveredar na malha urbana da antiga povoação. Evitei o contorno e fui de redor ultrapassar os crentes e finalmente infiltrar-me no cortejo.
Na descida da romaria fui rodando o pescoço para todos os lados, querendo absorver todo aquele ambiente, procurando a alma da procissão. Depois percebi que a procissão não tinha alma; quem a tinha eram os seus participantes e então arregalei os olhos e o que vi abalroou-me: uma senhora ao meu lado fazia a sua caminhada da fé de chinelo de enfiar no dedo decorado com uma gritante flor de plástico rosa-choque, mais à frente ia uma rapariga muito bem aperaltada mas quase nuazinha como Deus a trouxe ao mundo, do outro lado do cortejo iam duas mulheres de meia idade que cumpriam penitência nos seus saltos-agulha de dez centímetros e na dianteira ia uma criancinha toda vestidinha de pureza com folhinhos na saia e fitinhas brancas na cabeça que acompanhava a procissão aos saltos e abanando a sua graciosa juba loira para um lado e para o outro. Olhei-me ao espelho virtualmente e senti-me quase descontextualizada ao ter decorosamente coberto os meus ombros com uma malhinha e calçado uns sapatos que me cobrissem os pés. Senti-me mais enquadrada quando comecei a perceber que naquela marcha solene também participavam senhoras de feição determinada, cobertas nos ombros e pés, embora algumas levassem vestidos que estou certa de terem sido usados no casamento de um parente.
Seguiu a procissão estrada abaixo, parando uma e outra vez para ajeitar os andores. Nestes momentos, a senhora que seguia perto de mim segurando no estandarte, inclinava-se para o lado para poder ver para lá do panejamento e proferia um ruidoso “Psht!” seguindo de um “Está parado!” endereçado às três meninas que seguiam na dianteira vestidas de branco e que, aproveitavam também estes momentos para, fatigadas daquela tão longa caminhada, se pendurarem na cruz processional deixando descair o corpo até se sentarem no lancil para descansar as pernas. No mesmo decorrer de acontecimentos, a senhora do estandarte, vendo que aquilo podia demorar, comentava para o lado a multa que a vizinha apanhara por não limpar o terreno, ao que a outra crente respondia “E bem! Fogos já há suficientes!”. Foi também numa destas paragens para ajeitar a marcha que, para êxtase de muitos dos devotos, se soube através da histeria proveniente do café mais próximo que o Benfica marcara golo.
Ao curvar de uma esquina, ouviu-se um burburinho de vozes surpresas comentando que noutro tempo o caminho era diferente. Contudo, logo se juntaram ao ruído de espanto, alguns comentários explicando que se alterara o percurso para não empatar tanto o trânsito, face ao que todos aquiesceram pacificamente. Após este momento, a procissão chegou finalmente ao adro da igreja para lhe devolver a Nossa Senhora.
Todos se reuniram em torno dos andores para escutar o sermão do padre convidado, que muito ficou a dever à eloquência por estar repleto de lugares comuns e preceitos a cair de maduros. Ainda assim, todos rezaram o Ave Maria em uníssono e inclinaram as cabeças para receber a bênção do Santíssimo Sacramento (“Santíssimo” apenas, como lhe chamou o padre, já que estávamos todos em família). No fim, os santos entraram na igreja, os carregadores dos andores penduraram os fatos nos bancos, os padres em dois minutos voltaram a sair vestidos de homens comuns e, acabado o exercício da fé, começaram todos o exercício da língua, tagarelando uns com os outros, ali, no adro. Eram ainda mais, porque a festa era ao lado e já todos esfregavam as mãos para seguirem em verdadeira procissão o cheiro do frango assado.
E eu sentei-me num banco de pedra ali perto da igreja, desiludida com a fé e a força de espírito que eu tanto admirara até conhecer. Enquanto vivia aquele desconsolo lembrei-me de ter visto, num breve momento em que libertei os crentes do meu olhar ansioso, uma mulher num pranto sincero ao ver da janela passar a procissão. Redirecionei a atenção para a multidão em meu redor e não vi mais que rostos felizes à luz das velas acesas pelos devotos. Ao lado de umas pernas de minissaia aparecia de assalto uma pequena figura sorridente de cabelos esvoaçantes que seguiu a correr para o canto oposto. Mais atrás estava um carrinho de bebé rodeado de faces rubras representando macacadas dirigidas ao pequeno que estaria ali deitado alheio aos pais-nossos. Várias velhotas de braço dado com as suas filhas cumprimentavam as filhas das suas amigas que não viam deste o Verão anterior e contavam histórias acerca dos seus netos e, quem sabe, bisnetos.
Aos poucos, o adro ficou deserto, tal como aparece a quem ali passa noutra altura do ano e a multidão foi transferida para o recinto de festa. Eu fui vencida pela evidência dos factos. Em algumas coisas, os tempos não mudam, nem as vontades, e, cumpramos a tradição ou não, a procissão é um rio que desagua num mar de encontros, de abraços, de saudades e que enraíza muita gente ao seu berço imaterial, cumprindo um ritual que não é se não um ciclo útil e agradável à continuação da existência do homem-natureza, pagão e cristão universal.